Cantos das flores

26.05.08

Nascido em um pólo metalúrgico teve seu primeiro contato com o mar aos 5 anos, gritando...

Em um destes dias corriqueiros fui de bicicleta até São Vicente pra pegar umas revelações, e como sempre, na volta pra Santos, pego a ciclovia. Essa que amedronta até os mais corajosos, pelo acumulo de "ciclistas gladiadores" que apostam quem consegue pedalar mais rápido e ao mesmo tempo tentar derrubar os oponentes, ou seja, você. Coisas de Santos. Passei pelo posto 1, e fui pedalando em direção ao quebra mar. Ao passar bem em frente da Escolinha do Picuruta, que estava fechada, um aroma de flores e grama tomou conta do meu olfato. Um cheiro diferente do normal que se transformou em lembranças e memórias. E rapidamente se emolduraram na mais pura saudade e nostalgia, chamada Havaí.
Sempre fui fissurado pelo Havaí. Desde pequeno me lembro de assistir programas de TV que retratavam as belezas e maravilhas das ilhas. Isso só aumentou quando comecei a surfar aos 10 anos de idade. Lembro de encostar o braço nos muros altos e fazer toda a envergadura como se estivesse passando bem rápido pelo turbilhão de água do inside de Sunset Beach. Ou de ficar babando ao ver o programa realce, que mostrava um clipe com os melhores momentos do inverno havaiano de mil novecentos oitenta e alguma coisa. Lembro da musica que tocava.
Depois de alguns bons anos tive a honra de pisar em O´ahu pela primeira vez. Já descritas várias vezes, por vários jornalistas do surf, a chegada no Havaí, realmente é algo que fica difícil de se explicar. Primeiro você voa por umas boas 6 horas, se estiver vindo de Los Angeles, ou umas 10 horas se estiver vindo da costa leste, e ao chegar perto das ilhas, a imaginação começa a pairar em sua mente. O azul da água é impressionante. Vários tons que não cabem em uma aquarela. De repente o avião faz um contorno e passa pelos perímetros de Diamond Head, onde você claramente vê a cratera e as casas em volta. Começa a descida e o avião finalmente pousa. Um enorme momento de silencio, pelo menos pra mim, passa pela sua cabeça, com lembranças de todas as dificuldades e desafios pra se ter chegado ali.
Após passar pela burocracia, você passa por uma passarela até onde ficam as malas. Aí o surreal começa. Uma forte brisa morna toma conta do seu rosto, passa pelos braços e pernas. Um imenso arrepio toma conta de toda sua pele. Um cheiro de flores, grama, sonho, tomam proporções maiores do que tudo e todos na sua vida.
Dali em diante, tudo acontece um pouco mais rápido, pois a fissura de se chegar no destino e ver o mar do North Shore é bem maior do que as novidades à sua volta.
A minha primeira noite lá, por incrível que pareça, eu passei em Ala moana, em um albergue, pois não consegui alugar nenhum carro, pois era menor de 21 anos.
Cheguei ali de táxi, que um enorme samoano dirigia cantando e falando comigo. Não que entendesse muitas coisas, mas nos esforçávamos pra nos fazer nítidos. Coloquei minhas malas no quarto e desci até o escritoriozinho, onde um americano com o cabelo cheio de dreads ficava tocando violão enquanto a recepcionista varria o chão, legitimamente dançando com uma vassoura. A música era "Jamming" do rei, e o cheiro de "havaí", tomava meu coração pra sempre.
Dormi e finalmente consegui alugar um carro que me levou até o North Shore. Diferente de todos os brasileiros que vão pra lá, me perdi e acabei indo pela costa leste, ao inves de ir pelo meio da ilha.
A paisagem das praias é estonteante e a euforia de se chegar no North Shore é enorme.
Após dirigir por umas duas horas, cheguei em uma praia cheia de ônibus e turistas japoneses que se acotovelavam pra tirar um milhão de fotos por segundo, em suas super câmeras que pra se dizer à verdade, poderiam fazer tudo sozinhas, de tanta tecnologia digital. Parei o carro e desci. Caminhei e quando me dei conta, era Sunset Beach. Sabe aqueles momentos em que sua vida pára. O vento pára. As vozes se calam. Esse foi um dos momentos.
A historia se segue e as idas e vindas para o reino havaiano se sucederam por varias vezes.
O cheiro de grama e flores que tomaram conta de meu corpo na ciclovia de Santos, logicamente não era o mesmo que se sente no Havaí. O lugar não é e nem nunca será o Havaí. As pessoas não se portam e nem se comportam como lá. Mas estes pequenos e rápidos momentos em que você passa rapidamente pelas estradas da vida, e que provavelmente não voltarão, você se apercebe que poucas coisas se levam da vida, a não ser amigos, saudades e cheiros. Cheiros que trazem tantas memórias quanto uma foto. Cheiros que nos transportam para lugares longínquos que momentaneamente lhe transformam. A saudade de lugares, cheiros, pessoas, coisas, gostos, mar, tudo vem imediatamente.
Todas as coisas que passam pela nossa mente diariamente são vãs, perto dessas memórias. Coisas que contamos com graça, virtude e veracidade com que se tivesse dúvida de que se realmente aconteceram.
Luzes de cidades distantes e sorrisos de pessoas amáveis nos tornam melhores em tudo. Melhores que as enormes filas nos bancos em que os caixas te tratam como qualquer um. Podemos até ser qualquer um, mas os sentimentos e as lembranças que o mar, as buscas, e a sensação de eternidade em alguns momentos, nos torna um grupo especial e raro.
Surfistas.

Fonte: Jair Bortoleto

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